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A banalização dos psicofármacos

Vivemos em uma sociedade que sempre buscou meios de controlar o indivíduo desviante. O que antes era feito através de contensão física e enclausuramento, na contemporaneidade vemos esse controle ser imposto por meio da prescrição banalizada dos psicofármacos.

Na década de 50, após a II Guerra Mundial, com a ligação da descoberta dos psicofármacos e a ênfase preventiva, a psiquiatria mudou as suas práticas que anteriormente eram focadas somente no tratamento da loucura, passou – se a medicar qualquer possível sofrimento psíquico, sendo indicada até mesmo para pessoas reconhecidas como portadoras de saúde mental perfeita.


Historicamente o saber médico vem dominando toda a extensão em volta dos problemas relacionados à saúde humana, definindo assim o que é considerado normal, próprio e ditando como dever ser o tratamento. Conforme a visão de Cordeiro (1985), essa postura da medicina exerce uma forma de controle social, atingindo “todas as dimensões da vida do indivíduo, ao legitimar e institucionalizar o papel do doente” (p. 38).

Já Conrad vê a medicalização como um “processo pelo qual problemas não médicos são definidos e tratados como médicos, usualmente em termos de doenças e transtornos” (Conrad, 1992: 209). Isso ocorre tanto em relação a comportamentos ou eventos considerados desviantes, a exemplo da loucura, alcoolismo, homossexualidade, infertilidade, quanto em processos ‘naturais’ como nascimento, desenvolvimento infantil, menopausa, morte.

A partir desse conceito do saber médico, a psiquiatria passou a ter uma nova forma de ver, diagnosticar e tratar o sofrimento psíquico, criando termos do senso comum em relação às definições terapêuticas, sendo assim a psiquiatrização social passou a transformar qualquer mal-estar psíquico em patologia.

Atualmente a prescrição dos psicofarmacos passou a ser o recurso terapêutico mais utilizado no tratamento de quaisquer queixas tais como, ansiedade, tristeza, falta de concentração, melancolia e solidão.

Em diversas pesquisas afirma-se que o indivíduo está cada vez mais doente em função das causas inerentes à civilização; dentre as diversas causas apontadas, o estresse é considerado o principal vilão. A “própria medicina e suas práticas afins são responsáveis pelo nosso adoecimento ao medicalizarem as experiências mais comuns e naturais da nossa existência. (Amarante, 2015).

A loucura no Brasil e a reforma psiquiátrica


A partir do século XIX a loucura passou a ser reconhecida como desordem e perturbação da paz, passando a ser apropriada pelo discurso religioso (Vechi, 2004). Assim sendo os loucos foram sendo retirados da sociedade e enviados para os porões das Santas Casas de Misericórdia e prisões públicas. Os médicos da época não achavam essa ação o suficiente para resolver o problema da loucura. O isolamento, a falta de higiene e um tratamento físico e moral inadequado tornavam a cura impossível. Assim sendo em 1852 foi fundado no Rio de Janeiro o Hospício de Pedro II, inspirado no modelo francês de Pinel e Esquirol, sua administração ficou a encargo da Santa Casa. No hospício os loucos ficavam acorrentados só ficavam soltos quando participavam de oficinas para seu sustento e o da instituição, sem fins terapêuticos.

A psiquiatria usava os fármacos como tratamento nos asilos, para que os pacientes fossem submetidos a tratamentos que proporcionassem efeitos observáveis. Como por exemplo, a morfina e o ópio que eram empregados no tratamento da loucura, sendo as primeiras substâncias a serem testadas para estes fins. Com a descoberta das anfetaminas essa substância assumiu grande importância no tratamento da doença mental.

Nos anos posteriores foram criadas outras instituições semelhantes, em São Paulo, Pernambuco, Pará, Bahia, Rio Grande do Sul e Ceará. Machado (1978) descreve o modelo arquitetônico de Pedro II, como pensado para facilitar a vigilância pelos enfermeiros. “Tem a forma de um retângulo com um bloco central separando essas duas alas [masculina e feminina] laterais, cada uma contendo dois pátios internos” (Machado, 1978, p. 433).


Foto: Manicômio de Barbacena MG - Mais de 60 mil pessoas morreram em genocídio.


Os primeiros movimentos da reforma psiquiátrica surgiram na metade do século XX com a principal crítica em torno das práticas tirânicas exercida pela psiquiatria, da hospitalização e do asilamento do doente mental. Com a vertente de desinstitucionalização e desconstrução do manicômio e dos paradigmas que o sustentam.

A Reforma Psiquiátrica Brasileira veio com o objetivo de construir um estatuto social do doente mental, do direito a participar da sociedade, ter acesso a atendimento de qualidade que respeite seus direitos como cidadão. Assim, a Reforma Psiquiátrica tem o intuito de produzir mudanças culturais, substituindo as práticas de exclusão do louco no manicômio, para uma forma que ele tenha seu espaço na sociedade e atendimento de caráter descentralizado e comunitário


A indústria farmacêutica e sua influência no processo de medicalização do social

Nos últimos 50 anos tem se analisado muito a história do sofrimento psíquico entre as maiores mudanças ao longo de todos esses anos são os novos procedimentos de diagnósticos criados a partir do DSM (manual diagnostico estatístico de transtornos mentais), com isso houve também um crescimento da medicalização, usada como forma prioritária de intervenção terapêutica na atualidade.

Na sua grande maioria, as análises focam a presença atual de diagnósticos psiquiátricos que estabelecem bases biológicas para os sofrimentos psíquicos, aproximando os fenômenos mentais das doenças orgânicas, ou seja, vê-se um abandono crescente da descrição causal e de sentido dos sintomas apresentados pelo sujeito em benefício de uma noção em que os sintomas são reconhecidos como manifestações de desordens da bioquímica cerebral (Aguiar, 2004; Silva Jr., 2004; Roudinesco, 2000; Birman, 1999).

Considerando que a medicação é atualmente indicação prioritária das intervenções médico-psiquiátricas, associada a procedimentos diagnósticos descritivos, objetivados pelo discurso científico, bem como levando em consideração a socialização do discurso médico estabelecida pela mídia e as campanhas de marketing financiadas pela indústria farmacêutica, pode-se reconhecer em relevo o paradigma do discurso médico na produção de verdade acerca do sofrimento psíquico e de sua natureza. Se a psiquiatria clássica, de forma geral, esteve às voltas com fenômenos psíquicos não codificáveis em termos do funcionamento orgânico, guardando espaço à dimensão enigmática da subjetividade, a psiquiatria contemporânea promove uma naturalização do fenômeno humano e uma subordinação do sujeito à bioquímica cerebral, somente regulável pelo uso dos remédios.

As experiências psíquicas comportam uma construção social, sendo variável e ambígua a delimitação das fronteiras no que diz respeito a identificar marcadores e medidas, por exemplo, da passagem de uma tristeza à depressão, das variações de humor ao transtorno bipolar ou de quando a agitação das crianças passaria a ser considerada transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (Freitas & Amarante, 2012).

Se ocorre um hiperdimensionamento na classificação das psicopatologias, é importante considerarmos também o seu caráter de produção social sempre acompanhada de prescrições farmacológicas vinculadas à um mercado que se demonstra inescrupuloso na comercialização de psicotrópicos. Apesar de já haver suficientes evidências de efeitos não divulgados de intervenções biologicistas muitas vezes apresentadas como inofensivas (Angell, 2007).

Da mesma forma que há um evidente controle social operado pelos mais diversos dispositivos, haveria também no indivíduo uma vontade profunda de pertencimento. O que o leva a procurar assumir o lugar na sociedade destinado a ele, moldando sua identidade de acordo com o papel e as ações esperadas dele no espaço social (Berger 1980).

Sendo assim, o diagnóstico clinico passa a ser de extrema importância para o paciente, podendo a partir dele enquadrar-se nas limitações esperadas, adotar comportamentos e assumir novas formas de identidade.

O momento em que recebe o diagnóstico produz impacto no indivíduo fazendo mudar a visão que o mesmo tem de si.

Por exemplo, ao receber diagnostico de Boderline o paciente passará a comportar-se como portador desse transtorno, será medicado e buscará tratamentos adequados para essa patologia.

Recebendo o diagnóstico de algum transtorno mental, o indivíduo passa a usar regularmente psicofármocos prescritos, entrando nas estatísticas das psicopatologias, tornando – se um consumidor do lucrativo mercado das indústrias farmacêuticas.

Angell (2007) denuncia em seus estudos um conjunto de relações perigosas entre a indústria farmacêutica e o campo da saúde, envolvendo conflitos éticos e corrupção. Denuncia casos envolvendo figuras de autoridade no ambiente das associações corporativas médicas, de influentes universidades americanas e no meio científico em geral. Apresenta evidências de influência da indústria farmacêutica nos resultados de pesquisas, na clínica médica e na definição de categorias de doenças. Afirma a importância de enfrentarmos de forma mais rigorosa as causas da medicalização e suas consequências para o campo da saúde, em especial da saúde mental.


A sociedade atual impõe que o indivíduo deva estar sempre com um sentimento de pleno bem-estar, não sobrando tempo para qualquer sentimento de dor, angustia ou tristeza. As exigências de um mundo competitivo e globalizado torna esses sentimentos inaceitáveis. A contemporaneidade estaria aderida a uma crença quase absoluta no discurso técnico, anestesiando-se com substâncias que prometem muito, desde a perda de peso até a felicidade plena (Dantas, 2009).

Nesse contexto, surge a crença na sociedade de que a ciência pode produzir substancias que tem o poder de controlar qualquer problema e comportamentos da vida cotidiana. Os psicofármacos passam a serem bens de consumo, passam a ser a salvação de todos os sentimentos considerados inadequados.

As questões entre normal e patológico, antes negligenciada pelo tratamento fundado no isolamento social, encontra-se agora novamente por meio da intolerância da sociedade em relação aos sentimentos naturais juntamente com banalização da prescrição dos medicamentos.



Referências bibliográficas:


AGUIAR, A. A. A psiquiatria no divã: entre as ciências da vida e a medicalização da existência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.


AMARANTE P. revistaculturacidadania.blogspot.com.br, 2016 A problemática da medicalização. Acesso em 15/10/2016.


BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. p. 175-193


CORDEIRO, H. (1985). A indústria da saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Graal


CONRAD, P. Medicalization and Social Control. In Annual Review of Sociology, 18: 209-32, 1992.

MACHADO, Roberto. Aos loucos, o hospício. In: MACHADO, Roberto et al. Danação da norma. a medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1978, p. 423-443.


R SILVA Jr., N. Sobre a re-codificação mercantil do sofrimento. In: BOLGUESE, M. S. Depressão & Doença nervosa moderna. São Paulo: Via Lettera; Fapesp, 2004. p. 9-14OUDINESCO, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.


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VECHI L, A itrogenia e exclusão social: A loucura como objeto do discurso cientifico no Brasil. Estudos de psicologia 2004. Acesso em: 16 de Outubro 2016.

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