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A idealização da paternidade


Jorge me disse que queria ser pai.


Achei que não tinha escutado direito, então pedi para ele repetir a frase.


“Eu quero um filho.”


“Um filho?”


“É, amor, um filho...” - e desatou a falar de camisetinhas do timão e de passeio no parquinho. Falou que estava sentindo um chamado, mesmo.


Eu, que só acredito naquele chamado que é filme de terror japonês, comecei a rir. Jorge não gostou. Falou que eu deveria levar mais a sério a ideia dele de começar uma família.


“Mas nós e a Buda não somos uma família?” (Buda é a nossa cadelinha)


Jorge respondeu que era “claro que nós éramos uma família", mas perguntou se eu não estava sentindo falta de nada. Respondi que não, e essa resposta não serviu para porra nenhuma, já que, a partir daquele dia, volta e meia Jorge me sugeria parar com a pílula.


Jorge apontava para os bebês da praça de alimentação.

Jorge me lembrava que eu não era mais tão nova assim.

Jorge me dizia que a mãe dele apoiava.

Jorge falava dos filhos dos amigos.


E assim foi até que uma madrugada eu olhei pra Jorge e falei que ele tinha razão. Eu ia, enfim, parar de tomar a pílula. Jorge só faltava pular de alegria.


Falei que tinha algumas condições.


Jorge falou que faria qualquer coisa.


Falei que pararia com a pílula desde que ele trocasse as fraldas do bebê à noite. Afinal, eu tenho insônia e depois que acordo uma vez não consigo mais dormir. Falei que também não abriria mão da fisioterapia que faço depois do expediente, já que ficar sentada no serviço acaba com as minhas costas. Falei que por causa disso Jorge buscaria a criança quando ela já tivesse idade para ir à creche. Fora isso, estaria sempre presente para o nosso filho e para todas as necessidades que ele tivesse.


Jorge me olhou quieto. Não tomei a pílula, mas naquela noite, não transamos.


Nem na seguinte.


Nem na outra.


Uma semana depois, Jorge me disse que tinha mudado de idéia. Falou que talvez eu devesse "voltar a tomar o remédio".


Jorge não queria ser pai. Ele só queria que eu fosse mãe mesmo.


(texto ficcional de Natália Nodari )

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